Vinho e Queijo: Etnomatemática e Modelagem
Milton Rosa[1]
Daniel C. Orey[2]
Neste trabalho, os autores procuram demonstrar a
possibilidade da utilização harmoniosa do programa etnomatemática e da
metodologia modelagem na educação matemática, para o ensino-aprendizagem em
matemática.
In this paper, the authors seek to
demonstrate an essential harmony between ethnomathematics and mathematical
modeling in the teaching and learning of mathematics.
A etnomatemática é um programa que identifica-se
com o pensamento contemporâneo e, por isso, não limita-se somente ao registro
de fatos e práticas históricas. Isto
significa que a etnomatemática identifica-se com a filosofia atual, pois é uma
interpretação e uma releitura da história e da contemporaneidade. Nesta perspectiva, a etnomatemática está
atenta aos fatos e às práticas marginalizadas, principalmente às práticas do
homem comum, das comunidades dos rejeitados, das minorias, e dos povos que
foram vencidos no processo de colonização.
Este programa também faz parte de um sistema de pensamento matemático
sofisticado que não visa somente o desenvolvimento das habilidades matemáticas,
mas sim, o entendimento do “como fazer” matemática. Assim, se um sistema matemático é utilizado
constantemente por um determinado grupo cultural, como um sistema baseado numa
prática cotidiana que é capaz de resolver situações-problema reais, este
sistema de resolução, pode ser descrito como modelagem. Neste processo, ambos, a matemática
convencional e o sistema de pensamento matemático de um determinado grupo
cultural podem ser utilizados. Esta
perspectiva permite entender este aspecto como um processo etnomatemático, pois
não se preocupa somente com a resolução de problemas ou procura o entendimento
de como os indivíduos utilizam sistemas matemáticos alternativos para
solucionar problemas do dia-a-dia, mas sobretudo, procura entender o que é a
matemática. Neste sentido, os indivíduos
podem ter uma melhor compreensão das práticas matemáticas que estão utilizando
nos próprios sistemas matemáticos através da utilização da modelagem.
Etnomatemática e
Modelagem: Todos Fazem Modelagem
A educação matemática tradicional visa a
transmissão de uma determinada quantidade de técnicas que são utilizadas em
situações artificiais e que são apresentadas como problemas. Os problemas são
formulados artificialmente e somente auxiliam na memorização de certas
habilidades pelos alunos. Estes tipos de problemas e a técnicas utilizadas na
resolução dos mesmos são geralmente tediosos, desinteressantes, obsoletos, e
não possuem relação com o mundo externo e moderno. Estas características da
educação matemática tradicional são responsáveis pela diminuição do interesse,
do rendimento e pelo grau de satisfação escolar que os alunos possuem. Nesta perspectiva, Scandiuzzi e Miranda
afirmam que:
A procura de novas visões do ensino que
vivenciamos na virada do milênio, surge a necessidade de se criar novas formas
de pensar e encaminhar métodos de ensino para a Matemática. Sendo assim, temos
a opção de refletir sobre a Resolução de Problemas Matemáticos, que através da
etnomatemática, diferencie da forma tradicional (SCANDIUZZI e
MIRANDA, 2000, p. 251).
Seguindo esta tendência, uma das propostas que se
encontra presente na metodologia modelagem matemática é a utilização da
etnomatemática que está presente no cotidiano dos grupos culturais, que tem
como objetivo a ampliação e o aprimoramento do conhecimento matemático que
estes grupos possuem, para o fortalecimento da identidade cultural dos
indivíduos, como seres autônomos e capazes. Este aspecto, favorece, nestes
grupos, o desenvolvimento de uma forte raiz cultural que possibilitará o
conhecimento sobre a cultura dominante. Assim, o programa etnomatemática propicia
o fortalecimento das raízes culturais presentes nestes grupos enquanto as
técnicas da modelagem matemática proporciona a contextualização da matemática
acadêmica, fornecendo condições de igualdade para que os indivíduos possam
atuar no mundo globalizado. D’Ambrosio (1990) define etnomatemática como a
maneira pela qual culturas específicas (etno)
desenvolveram ao longo da história, as técnicas e as idéias (tica) para aprender a trabalhar com
medidas, cálculos, inferências, comparações, classificações, e modos diferentes
de modelar o ambiente social e natural no qual estão inseridas, para explicar e
compreender os fenômenos que neles ocorrem (matema). No aprimoramento conceitual da
etnomatemática, na última década,
observa-se que os conceitos etnomatemáticos elaborados por D’Ambrosio
são mais abrangentes do que a definição etimológica apresentada
anteriormente. D’Ambrosio (2001), define
a etnomatemática como uma “meta-definição etimológica”, pois faz elaborações
sobre as etnos, os matemas, e as ticas, na tentativa de entender o ciclo do
conhecimento, ou seja, a geração, a organização intelectual, a organização
social, e a difusão do conhecimento adquirido pelo grupos culturais. Nesta dinâmica cultural, não existe uma
história da matemática como um processo, mas sim como um registro seletivo dos
fatos e das práticas que serviram para esta apropriação. Este fato faz brotar a vertente histórica do
programa etnomatemática através da releitura da história do conhecimento. De acordo com este ponto de vista, a história
da etnomatemática é identificada com a história de uma determinada
civilização. Assim, o programa
etnomatemática reconhece este fato através de suas conexões com a história, a
filosofia e a pedagogia da matemática.
Sendo a matemática o produto de uma civilização específica na busca de
soluções para os problemas enfrentados no cotidiano, ela identifica-se com a
história desta civilização e não somente com a história, a filosofia e a
pedagogia da matemática que se originou nas antigas civilizações mediterrâneas.
Nesta perspectiva, D’Ambrosio (2000) afirma que o programa etnomatemática não
rejeita os conceitos apresentados pela matemática acadêmica, pois aprimora
estas concepções para incorporá-las aos valores de ética, respeito,
solidariedade e cooperação que estão presentes nos grupos culturais. Este contexto permite que a modelagem atue
como uma metodologia que é essencial ao programa etnomatemática. Este aspecto torna-se verdadeiro ao se
observar a história da matemática, pois a modelagem matemática é o pilar sobre
o qual a matemática se desenvolveu e ainda se desenvolve, através de um
processo de abstração, que é construído encima dos modelos matemáticos, que são
representações do mundo real. Contribuindo para esta abordagem, Biembengut afirma
que:
Conhecer, entender e explicar um modelo
ou mesmo como determinadas pessoas ou grupos sociais utilizaram ou utilizam-no,
pode ser significativo, principalmente, porque nos oferece uma oportunidade de
“penetrar no pensamento” de uma cultura o obter uma melhor compreensão de seus
valores, sua base material e social, dentre outras vantagens
(BIEMBENGUT, 2000, p. 137).
Historicamente, os modelos que têm origem na
realidade dos grupos culturais, são os primeiros passos para a abstração dos
conceitos matemáticos. A etnomatemática serve-se da manipulação destes modelos
como estratégias de ensino para a educação matemática que utiliza outras
codificações concomitantemente com a linguagem formal da matemática acadêmica.
Como exemplo, cita-se Orey (2000), que utiliza a metodologia modelagem
matemática para discutir a importância do simbolismo do círculo para os povos
das Grandes Planícies da América do Norte. Neste estudo, foram utilizados
modelos matemáticos para entender, compreender e explicar os métodos matemáticos
utilizados por aqueles povos indígenas, que preferem utilizar uma estrutura
tripé (tripodal) para a construção
das cabanas chamadas Tipi, ao invés de uma estrutura quadripé (quadripodal). Os métodos para determinação da altura das
cabanas e os estudos geométricos da base da Tipi
e as suas conexões com a área lateral e área da secção circular do cone
oferecem exemplos interessantes da utilização da metodologia modelagem como
aplicação do conhecimento matemático adquirido por aquele grupo cultural
específico. Este fato demonstra que a etnomatemática pode ser caracterizada
como uma forma de entendimento do pensamento matemático dos grupos culturais e
que a modelagem atua como uma ferramenta que torna-se importante para que os
indivíduos possam atuar e agir no mundo.
Para ilustrarmos a relação existente entre a
etnomatemática e a modelagem, analisemos detalhadamente um dos modelos
propostos por Orey (2000) para a proposição de uma explicação científica para a
estrutura tripé da Tipi baseada na perspectiva etnomatemática.
Os habitantes da região das grandes planícies da América do
Norte, da época pré-colombiana, foram capazes de construir comunidades
sofisticadas, rotas de comércio, e sistemas de comunicação que se estendiam da
América do Norte até a América Central.
A cultura, a arte, a linguagem, a religião, e os ritos cerimoniais
desses povos foram e ainda são completamente dominados pela forma circular, contrastando-se
com a predominância das formas quadradas de grupos culturais contemporâneos.
Tipi
Tipi é uma palavra que tem origem no idioma Sioux e que
significa tenda cônica de couro que serve como moradia para os indígenas das
grandes planícies da América do Norte.
Um grande número de tribos indígenas norte-americanas utilizam uma fundação
tripé para a construção das suas moradias.
Este grupo cultural possui um legado de conhecimentos, conduta e regras
que foram transmitidas às gerações futuras e que tornaram possível o elo, a
continuidade, e a transmissão dos conhecimentos que este grupo cultural
acumulou através dos tempos. O
conhecimento que foi gerado pelas necessidades provocadas pelo meio-ambiente,
neste caso; as grandes planícies norte-americanas, que possuem ventos fortes
constantes; no qual essas tribos indígenas estão inseridas, contribuiu para que
essa cultura entendesse e explicasse a realidade, pela aquisição de um saber
que permitiu a elaboração do conhecimento no qual a fundação tripé oferece uma
melhor estabilidade em relação a fundação quadripé, que é utilizada por outras
tribos indígenas que vivem no nordeste ou próximos às cadeias montanhosas
norte-americanas, em que os ventos são fracos e não constantes.
Figura 1: Fundação tripé da Tipi
A matemática acadêmica, através do processo da modelagem,
pode explicar porque a fundação tripé é mais resistente do que a fundação
quadripé. Vamos imaginar três pontos não
colineares A, B, e C. Há um número
infinito de planos que passam através dos pontos A e B e que contém a reta
AB. Porém, somente um destes planos
também passa através do ponto C, então, pode-se afirmar que três pontos não
colineares determinam um único plano.
Isto significa que dados três pontos não colineares, há somente um plano
que contém estes três pontos. Existe uma
similaridade deste postulado matemático com a estrutura tripé da tipi, pois
esta estrutura parece estar perfeitamente adaptada ao ambiente climático hostil
no qual é utilizada. A estrutura tripé
também possui a vantagem de providenciar uma estrutura estável, leve e
portátil, que facilita o transporte de uma região para outra. Ao mesmo tempo, este tipo de estrutura
resiste aos ventos fortes e a extrema variação do clima nas grandes planícies.
Dessa forma, ao se trabalhar com o programa
etnomatemática, a modelagem matemática está sempre presente, pois os recursos
utilizados pela modelagem, que são as noções conceituais e as técnicas
matemáticas, estão presentes na resolução dos problemas que se encontram no
currículo da matemática tradicional. Um processo que é similar ao processo
desenvolvido pela metodologia modelagem matemática é descrito por Scandiuzzi e
Miranda:
O importante é fazer com que a idéia
venha do aluno para escolher o problema a ser analisado, e o professor dever
ser apenas um parceiro, evitando a interferência excessiva em alguma idéia do
aluno. Deve, desta maneira ensinar os
alunos a refletir, encontrar hipóteses, procurar caminhos para possíveis
soluções, quer seja através de uma música, um poema, qualquer receita de
comida, uma história infantil, seja de gibi ou livro e entrevistas
(SCANDIUZZI e MIRANDA, 2000, p.251).
De acordo com estas idéias, que representam
aspectos do processo de modelagem, através de um estudo sobre o café, realizado
por Rosa, Silva, Beraldo, Del Conti e Vialta (1999), os autores procuraram
estudar as conexões da etnomatemática com a cultura cafeeira e com os modelos
matemáticos oriundos do café e suas aplicações na prática. Neste estudo, os autores, em visita em uma
fazenda de café no Estado de São Paulo, estudaram um aspecto etnomatemático que
pôde ser modelado matematicamente. Na
fazenda visitada, os colhedores de café fabricam e utilizam cestos feitos
artesanalmente por eles para a colheita e transporte do produto. Dessa maneira,
recebem o pagamento por todo o café que conseguem colher num dia de
trabalho. Quando os colhedores foram
indagados sobre a forma de pagamento, os autores foram informados que o
fazendeiro utilizava como unidade de medida o cesto por eles fabricado. O fazendeiro
também alegava que o volume do cesto era equivalente a 60 litros. Partindo do
ponto de vista de que a educação matemática está em busca da formação de
indivíduos que tenham poder sócio-político-econômico e que sejam capazes de
realizar uma transformação social, também é necessário que o saber popular dos
grupos sociais seja conectado ao saber acadêmico na luta pelos direitos de
cidadania (Knijnik, 1993). Neste contexto, como verificar se o fazendeiro
estava efetuando o pagamento correto de cada cesto colhido?
Neste caso, existe uma responsabilidade do
pesquisador para com os colhedores de café.
O impacto desta responsabilidade é crítica para que os pesquisadores
auxiliem os colhedores de café a observarem se estão sendo explorados pelo
fazendeiro e ao mesmo tempo providenciar aos mesmos condições analíticas que
possuam fortes implicações sociais.
Assim, as condições analíticas apresentadas pelos pesquisadores são
exercitadas com a utilização da matemática que funciona como uma ferramenta que
tem como objetivo o fortalecimento do entendimento da justiça social. Sabendo que uma grande parte dos colhedores
de café não freqüentaram os bancos escolares e não possuem acesso adequado ao
conhecimento matemático, é dever do pesquisador auxiliá-los a perceberem a
matemática presente nesta atividade, através da análise da perspectiva etnomatemática do ponto de vista da
matemática acadêmica e do ponto de vista do seu papel como uma instituição
social (Fossa, 2000, p. 183).
Relatando as diferenças entre os pesquisador em
modelagem e o pesquisador em etnomatemática, Scandiuzzi afirma que:
...enquanto o pesquisador da Modelagem
Matemática tenta entender a realidade para pensar em um modelo de resolução do
problema que o sistema escolar valida, o pesquisador em Etnomatemática, por sua
vez, validará o modelo que determinado segmento constrói para a resolução do
problema que aparece, procurando entender o modelo apresentado
(SCANDIUZZI, 2002, p.54).
Existe um consenso de que se deva sempre valorizar e validar o modelo elaborado
por determinado grupo social, porém, quais procedimentos devem ser tomados se o
pesquisador verificar que com a aplicação de determinado modelo matemático, os
colhedores de café deixam de ser explorados ou podem ter uma produção
maximizada? No ponto de vista dos
autores deste artigo, este fato não invalida os modelos utilizados por
determinada cultura, pois os aprimoram, principalmente quando estão a procura
das “tradições matemáticas que
sobreviveram á colonização e as atividades matemáticas na vida diária das
populações, analisando as possibilidade de incorporá-las ao currículo”
(SEBASTIANI, 1993, p.18). Esta é uma conseqüência natural da evolução de cada
grupo cultural, pois não se pode congelar determinada cultura no tempo e no
espaço. A opção da aceitação do novo, sem perder o elo com as tradições, deve
ser do grupo cultural. Isto não
significa, porém, que se deva abandonar um modelo em detrimento do outro, pois
não existe um modelo melhor do que o outro, o que existem são diferenças que
fazem parte de uma realidade e que chega “de
maneira natural e através de um enfoque cognitivo com forte fundamentação
cultural, á ação pedagógica” (SEBASTIANI, 1993, p. 18). Deve-se acreditar
que ambos os modelos podem conviver em conjunto e em harmonia. Com relação ao
estudo do café, os pesquisadores queriam verificar se o fazendeiro estava
realizando o pagamento correto aos colhedores de café. Assim, com a utilização
de um modelo matemático para determinar o volume do cesto, em litros,
verificaram que o cesto possuía 59,7 litros. Dessa forma, o modelo
etnomatemático utilizado pelos colhedores validou o modelo matemático dos
pesquisadores e vice-versa. Neste
aspecto, a matemática, através da modelagem, é uma ferramenta importante, que
auxilia os indivíduos de diferentes grupos culturais, o entendimento, a análise
e a reflexão sobre as próprias realidades. Dessa maneira, ser proficiente na
utilização desta ferramenta é de fundamental importância para que os indivíduos
possam, através de suas ações, transformar a realidade, de modo a incluí-los
nesta transformação. Verifica-se, dessa forma, que o currículo matemático pode
ser renovado com a aplicação das perspectivas da etnomatemática e da modelagem
matemática. Porém, o desenvolvimento do programa etnomatemática depende muito
das situações que são interessantes para os alunos, pois a motivação é um
componente chave para este programa. Os professores devem selecionar situações
que apresentem aspectos etnomatemáticos e que estejam relacionadas com o
ambiente cultural da população escolar. Powell e Frankenstein (1997) propuseram
a elaboração de um currículo matemático baseado no conhecimento dos alunos,
permitindo aos professores serem mais criativos na escolha dos tópicos da
matemática acadêmica a serem ensinados. Eles sugeriram que através de diálogos
com os alunos, os professores podem descobrir temas que os auxiliarão a
direcionar o currículo matemático. Utilizando este ponto de vista, os
professores podem engajar os alunos na análise crítica da cultura dominante e da
própria cultura, através da linguagem matemática, numa perspectiva
socio-política-transformadora. Neste caso, a metodologia que parece ser mais
adequada para tratar destas situações é a modelagem matemática, pois a escolha
dos temas pode ser direcionada para cobrir tópicos específicos da matemática
acadêmica. Dessa forma, deve-se investigar as concepções, tradições e práticas
matemáticas de um determinado grupo social, com a intenção de incorporá-las ao
currículo como um conhecimento escolar (Knijnik, 1996; Sebastiani, 1997).
Podemos citar como exemplo, o trabalho de Gerdes (1988, 1997) e de seus alunos
que investigaram um método comumentemente
utilizado para a construção das fundações das casas em Moçambique. Eles estudaram
como os indivíduos utilizam cordas e varetas de bambus para construir a base
retangular das casas. Nesta base, as diagonais são compostas por cordas de
mesmo comprimento e os lados são formados por varetas de bambu. Através da
aplicação de modelos matemáticos, eles encontraram uma matemática “escondida”
que os auxiliaram a tornarem-se conscientes dos valores educacionais e
científicos da própria cultura através da redescoberta e exploração deste
aspecto etnomatemático presente na própria realidade.
Em nosso ponto de vista, é difícil enxergar a
etnomatemática desvinculada da modelagem matemática. D’Ambrosio (2000) não distingue uma situação
conflitante entre a etnomatemática e a modelagem, pois compara estas duas
tendências pedagógicas com o queijo e o vinho.
Na indagação que D’Ambrosio faz no documento “Etnomatemática e
Modelagem”, apresentado no Primeiro Congresso Brasileiro de Etnomatemática,
realizado em São Paulo, em Novembro de 2000, “Queijo é vinho? Vinho é queijo?”,
D’Ambrosio afirma que um bom vinho tem um sabor melhor se for tomado com o
acompanhamento de um bom queijo e que um queijo de qualidade merece sempre ser
acompanhado por um bom vinho. Isto
significa que através da modelagem matemática, a etnomatemática e a matemática
acadêmica se misturam e se confundem. Acreditamos que a matemática acadêmica é
uma etnomatemática que é definida nos padrões culturais dos indivíduos que a
praticam. Estes indivíduos, como por
exemplo, alunos, professores, matemáticos acadêmicos, e pesquisadores,
apropriam-se de outras idéias matemáticas, isto é, de etnomatemáticas que
pertencem a outros grupos culturais, traduzindo-as para a linguagem da
matemática acadêmica e incorporando-as como práticas matemáticas através da
modelagem. Este é o processo da dinâmica
cultural defendido por D’Ambrosio (1990, 1993, 2001). Dessa forma, os alunos praticam a matemática
acadêmica ao modelar situações-problema que são geradas na perspectiva
etnomatemática. Neste contexto, a
modelação matemática atua como uma ponte entre a etnomatemática e a matemática
acadêmica que será requerida nas atividades que estão presentes na sociedade
contemporânea. Deve-se ter consciência de que cada civilização desenvolveu um
conjunto de idéias matemáticas próprias; dentre as quais destacam-se algumas
ferramentas básicas que são utilizadas no processo de modelagem; que são as
maneiras que cada grupo cultural desenvolveu para lidar com a realidade, com a
medida, com a comparação, com a quantificação, com a classificação e com a
inferência. Um aspecto primordial, é que se auxilie os alunos perceberem o
potencial matemático que eles possuem através do reconhecimento da importância
da cultura para a identidade de cada indivíduo, pois este aspecto afeta o modo
como cada um pensa, aprende, reflete, conclui e toma decisões. Nas aulas de
matemática, deve-se valorizar, entender e compreender a influência que
determinada cultura tem sobre a matemática e como esta influência resulta nas
diferentes maneiras sobre as quais a matemática é pensada, comunicada e
transmitida. Deve-se olhar para os
acontecimentos da vida diária com olhos antropológicos e matemáticos, numa
perspectiva etnomatemática, para que se possa re-situar a capacidade de
analisar, refletir, e julgar dentro contexto histórico-sócio-político-econômico
num mundo complexamente globalizado.
Assim, deve-se detalhar as relações da etnomatemática que estão
presentes no dia-a-dia com a matemática acadêmica para que se possa elaborar
intervenções pedagógicas para o ensino-aprendizagem em matemática, designadas
especificamente para um determinado grupo cultural.
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[1] Mestre em
Educação pela California State University, Sacramento. Professor de Matemática
na escola de segundo grau Encina High School em Sacramento, California. Aluno de graduação no Programa Ph.D. em
Educação Matemática na University of California, Davis (milrosa@hotmail.com)
[2] Doutor Ph.D. em
Educação pela Universidade de Novo México. Professor de Matemática e Educação
Multicultural na California State University, Sacramento (http://www.csus.edu/indiv/o/oreyd/).